Como se adaptar à tecnologia, administrar conflitos e promover comunhão em tempos de isolamento social?

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Pastores falam sobre este e outros desafios de gerir as igrejas em meio à pandemia
Como o objetivo da série “De Pastor para Pastor” é ouvir pastores e tornar suas falas públicas, com a esperança de que outros se identifiquem e acolham essas palavras, como encorajamento e apoio, conversamos com cinco pastores e perguntamos a eles: “qual o maior ou os maiores desafios de gerir uma igreja em meio a uma pandemia?” Entre os pontos citados por nossos entrevistados, eles mencionaram: promover comunhão em tempos de isolamento e distanciamento, estabelecer uma comunicação eficiente, adaptar-se à tecnologia para realização de atividades virtuais, valorização da vida, reaprender a fazer coisas que faziam tão bem há anos, administrar conflitos de uma membresia polarizada, oferecer cuidado emocional, etc.

Já nos acostumamos a ouvir e a falar que a pandemia é um grande desafio. Mas, muito provavelmente, a maioria das pessoas não tem a exata noção da profundidade desse desafio e da dimensão de suas consequências. A pandemia afetou e transformou todas as áreas da sociedade e, consequentemente, todas as pessoas são impactadas de diferentes maneiras. Agora, imagine em quem respinga um pouco de tudo isso. Talvez, muitos não pensariam na figura do pastor como a primeira resposta a essa pergunta. Mas se formos analisar bem, pastores e líderes estão numa posição na qual precisam lidar com muitas questões e problemas que têm a pandemia como causa comum.

Não queremos neste artigo elucidar todas as possíveis consequências da pandemia, mas sim refletir sobre como elas afetam o exercício pastoral. É preciso destacar, antes, que cada igreja possui um contexto específico, com características e necessidades peculiares, e isso implica dizer que pastores e líderes terão alguns desafios em comum, por se tratar de um contexto de igreja, mas também existe um universo heterogêneo de problemas e questões por causa de diferentes fatores, tais como o tamanho da igreja, o perfil socioeconômico da membresia, o local que a igreja se encontra, entre outros. Confira abaixo as respostas na íntegra:

Com a palavra, os pastores
“O distanciamento provocado pela pandemia pode fazer com que alguns membros da equipe não tenham a real dimensão do que está acontecendo no contexto da membresia. Além disso, nesse tempo muitos líderes ficaram abalados com a perda de familiares próximos, perda de emprego, instabilidade econômica, etc. Em algumas igrejas isso acabou retardando um pouco a gestão eclesiástica e levando seus conselhos a mudar totalmente o planejamento. Uma boa pergunta para nós nesse momento é: Estamos dispostos a atuar nesse novo cenário, onde coisas que sabíamos fazer tão bem precisam agora ser reaprendidas?” (André Luis Barros Monteiro, 42 anos, 5 anos de pastorado, atua como pastor da Igreja Presbiteriana Mananciais, Rio de Janeiro, Rio de Janeiro)

“1 – Interação, pois os cultos online ajudam, mas são paliativos. Marshall McLuhan, teórico da comunicação dizia que ‘o meio é a mensagem’. O canal utilizado para comunicar já comunica por si mesmo. Pessoas anseiam por pessoas. Só culto online não supre. 2 – Os que são pouco comprometidos tendem a se tornar nada comprometidos. É preciso busca-los e integrá-los por meio de contatos mais pessoais, individuais. Esperar que eles se sentem em frente a algum aparelho e participem de forma integrada do culto, não funciona. 3 – Estamos em um mundo divergente por natureza. Há um cabo de guerra opinativo dentro da comunidade. Uns temem tudo e outros nada temem. Podemos ser vistos como medrosos por alguns e como descuidados por outros. É difícil estabelecer consenso quando a comunicação é mais fria. 4 – Tudo precisa ser readaptado e leva tempo para que todos assimilem as mudanças.” (Eguinaldo Hélio de Souza, 50 anos, 30 de pastorado, pastor auxiliar na Igreja Vale da Bênção, Araçariguama, São Paulo)

“A maior dificuldade em pastorear a igreja em meio à pandemia da Covid-19 tem sido as demandas emocionais apresentadas pelos membros da igreja. O medo da contaminação e o isolamento social têm gerado muita ansiedade, estresse e depressão entre os membros da igreja. Além disso, com o passar do tempo, os membros parecem estar cansados de participar de programações online e isso gera um comprometimento na comunhão com os irmãos e com o próprio Deus. Além disso, a polarização vista fora da igreja com relação a pandemia entrou também na igreja. Há irmãos que defendem o cancelamento de todas as programações presenciais com a pandemia, enquanto outros defendem a abertura total de todas as programações da igreja, mesmo que seja necessária a desobediência ao Estado. O conselho da igreja e os pastores estão administrando conflitos o tempo todo.” (Juliano Jesus Veloso, 42 anos, 10 anos de pastorado, atua como pastor efetivo na Primeira Igreja Presbiteriana de Indaiatuba, São Paulo)

“O maior desafio, sem dúvida alguma, é gerir a comunhão da igreja e desenvolver uma comunicação eficiente. As diferentes gerações exigem estratégias e atenções específicas que demoram para entendermos bem. Em nossa experiência local, por estarmos numa cidade universitária, com muita rotatividade, esse desafio que todas as igrejas enfrentam foram potencializados, já que temos membros que residem em outras cidades, ou até mesmo em outros estados, e já estão conosco há tanto tempo que perderam o vínculo com suas igrejas de origem. Mas eu poderia citar outros, como o desafio de lidar com tantos decretos e restrições que mudam quase que mensalmente – entendê-los e atendê-los em suas especificações num curto espaço de tempo é muito difícil. A IPV não tinha conta nas redes sociais e nenhum equipamento para transmitir os cultos, o que nos fez correr atrás de um atraso tecnológico e digital de aproximadamente 10 anos, para atender a igreja num prazo curto. Mas ao mesmo tempo somos agraciados com uma comunidade voluntariosa que ofertou tempo, habilidade e paciência à liderança da igreja.” (Pedro Paulo Sanches da Silva Valente, 40 anos, atua como pastor titular na Igreja Presbiteriana de Viçosa desde dezembro de 2019, mas serve na mesma igreja como obreiro desde 2010)

“O maior desafio foi viver a valorização da vida de maneira real e objetiva. Dar importância à vida em detrimento a qualquer outro valor ou circunstância. Estar ao lado dos que perderam os seus, chorando as suas dores e lágrimas e vivendo, seguindo as normas sanitárias, sem nenhuma influência política e ideológica, as restrições e imposições sanitárias impostas pelas autoridades. Por último, atuar como voz profética trazendo paz, consolo e esperança para todos, sem exceção, apresentando o céu como fonte de cura, paz e conforto para todos, sem nenhuma exceção.” (Tércio Sá Freire de Oliveira, pastor da Comunidade Evangélica Vale da Benção, em São Roque, São Paulo)

fonte https://sepal.org.br/como-se-adaptar-a-tecnologia-administrar-conflitos-e-promover-comunhao-em-tempos-de-isolamento-social/?utm_source=rss&utm_medium=rss&utm_campaign=como-se-adaptar-a-tecnologia-administrar-conflitos-e-promover-comunhao-em-tempos-de-isolamento-social

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