O portal de noticias que alerta a igreja e corpo de Cristo quanto a tudo que acontece para alertar quanto a vinda de Cristo

O Google e a liberdade de expressão

Enviado por Segunda, agosto 14 @ 07:00:00 BRT por admin

Anonymous escrever "Com a demissão do engenheiro de software James Damore, 28 anos, o Google demonstrou intolerância a opiniões divergentes e a incapacidade crônica das empresas do Vale do Silício de lidar com a própria natureza e seu papel diante da sociedade.

Mestre em sistemas biológicos pela Universidade Harvard e desenvolvedor no Google desde 2013, Damore é o autor do memorando "Google's ideological echo chamber" (A câmara de eco ideológica do Google), que critica as políticas adotadas pela empresa para ampliar a diversidade entre seus funcionários. O memorando circulou internamente e, ao vir a público numa reportagem do Motherboard, expôs a tensão no ambiente de trabalho do Google. 

Não se trata, como parte da imprensa americana insiste em afirmar, de um “manifesto anti-diversidade”. Mas de uma visão que destoa do consenso predominante a respeito da questão. O texto de Damore foi escrito em estilo retorcido e contém erros na interpretação de resultados científicos. Mas é claríssimo sobre esse ponto. É essencial citar um trecho extenso para analisar seus argumentos e entender por que a reação do Google foi despropositada (a íntegra do memorando, revelada pelo Gizmodo, pode ser lida aqui com todos os quadros e notas):

– Valorizo a diversidade e a inclusão, não nego que o sexismo exista e não endosso o uso de estereótipos – escreveu ele logo na abertura do texto. Não digo que todos os homens sejam diferentes de todas as mulheres dos modos seguintes nem que essas diferenças sejam ‘justas’. Simplesmente afirmo que adistribuição de preferências e habilidades (grifo meu) de homens e mulheres diferem em parte devido a causas biológicas e que tais diferenças podem explicar por que não vemos uma representação igual de mulheres na (indústria de) tecnologia e em (posições de) liderança. Muitas dessas diferenças são pequenas e há uma superposição significativa entre homens e mulheres, então você não pode dizer nada sobre indivíduos dadas essas distribuições(novo grifo meu) de níveis populacionais.

É perfeitamente possível discordar de Damore. Embora tenha tomado o cuidado de afirmar que as distribuições populacionais não possam ser usadas para justificar estereótipos, ele mesmo faz isso. Lança mão de vários sobre as mulheres: “são mais abertas a sentimentos e estética em vez de ideias”, “interessam-se mais por pessoas que por coisas”, “são mais gregárias e menos assertivas”, “são mais neuróticas e ansiosas”. 

Para justificar sua análise, também comete erros na interpretação de resultados científicos, que foram tirados do contexto. O principal estudo de onde extraiu suas conclusões (embora não seja citado) não as embasa (a íntegra está aqui). Sua afirmação mais provocativa, que desencadeou a demissão, é enfatizar a influência de fatores biológicos nas diferenças observadas no mercado de trabalho.

A principal revisão de pesquisas sobre o tema (disponível aqui) não sustenta tal afirmação, como escreveu o pesquisador Adam Grant em texto no LinkedIn. Mas a conclusão de Grant também está sujeita a controvérsia, como revela uma crítica extensa do psiquiatra Scott Alexander em seu blog StarCodex.

Independentemente da polêmica sobre a influência de fatores biológicos ou sociais na disparidade entre homens e mulheres, Damore cometeu erros. Mas o erro do Google ao demiti-lo foi ainda maior. Eis como o CEO Sundar Pichai justificou a demissão, em e-mail transmitido a todos os funcionários:

– Apoiamos fortemente o direito dos Googlers a se expressar, e muito do que estava no memorando é justo debater, independentemente de uma vasta maioria dos Googlers discordarem. Entretanto, partes do memorando violam nosso Código de Conduta e cruzam a linha, ao propagar estereótipos de gênero nocivos no ambiente de trabalho (…). Sugerir que um grupo de nossos colegas tem traços que as torna menos biologicamente adequadas ao trabalho é ofensivo e não está certo. É contrário a nossos valores básicos e a nosso Código de Conduta, que espera de cada Googler “que faça o máximo para criar um ambiente com uma cultura livre de assédio, intimidação, viés e discriminação ilegal.

O Google, é bom reiterar, tem todo o direito de impôr a seus funcionários um Código de Conduta a respeito de comportamento e do discurso. Embora não seja ilegal demitir Damore por acreditar que houve violação desse código, a legalidade da decisão não basta para justificá-la. Trata-se de um erro não apenas para a imagem da empresa, mas sobretudo por causa da fragilidade de seus argumentos.

“Parte de construir um ambiente aberto e inclusivo significa incentivar uma cultura em que aqueles com visões alternativas, incluindo pontos de vista diferentes, se sentem seguros para compartilhar suas opiniões”, diz Pichai no e-mail. Mas quem agora se sentirá seguro, depois que Damore foi demitido por expressar justamente uma visão alternativa, com opiniões divergentes?

Ele pode ter, segundo a interpretação da empresa, violado o código interno. Mas não violou nenhuma lei anti-discriminação. Embora tenha cometido erros em sua análise e incorrido em estereótipos discutíveis, em nenhum momento adotou discurso de ódio ou pregou violência contra algum grupo. Ao contrário, reconheceu a importância de resolver o problema da diversidade e ofereceu, no final do memorando, propostas de soluções segundo sua leitura. O do*****ento propunha o início de um diálogo. O vazamento provocou sua demissão.

A verdadeira razão para demiti-lo não está dentro do Google, mas fora. O Departamento de Trabalho investiga a empresa por disparidades na remuneração de homens e mulheres. Todo o Vale do Silício passa hoje por uma verdadeira devassa contra o assédio sexual. O ex-CEO do Uber, Travis Kalanick, renunciou sob acusações de sabotar investigações sobre estupro e de ser complacente com o machismo. Metade das mulheres que trabalham na indústria tecnológica se diz alvo de avanços sexuais de capitalistas de risco. O fundador da Binary Capital, Justin Caldbeck, foi acusado por pelo menos seis. É um clima sensível demais a opiniões como a de Damore.

Mas seu memorando, com todos os erros e preconceitos que possa ter, levanta uma questão também perniciosa no Vale do Silício: a falta de diversidade de opiniões políticas, que reflete a homogeneidade da academia americana. Num trecho que novamente vale a pena citar por extenso, Damore faz o seguinte diagnóstico:

– Todos nós temos inclinações e usamos raciocínios motivados (por elas) para descartar ideias que contrariam nossos valores internos. Assim como alguns na direita negam a ciência que inverte a hierarquia “Deus>humanos>meio ambiente” (p.ex. evolução e mudanças climáticas), a esquerda tende a negar a ciência relativa a diferenças biológicas entre as pessoas (p.ex. Q.I. e diferenças sexuais). Felizmente, a maioria dos cientistas climáticos e biológos evolutivos geralmente não são de direita. Infelizmente, a esmagadora maioria das humanidades e ciências sociais se inclina para a esquerda (cerca de 95%), o que cria um enorme viés de confirmação, muda o que é estudado e mantém mitos, como o construcionismo social e a disparidade de gênero na remuneração. A inclinação do Google para a esquerda nos torna cegos para tal viés e acríticos de seus resultados, que usamos para justificar programas altamente politizados.

O desequilíbrio político no meio acadêmico é real. Levou recentemente um grupo de pesquisadores americanos, liderados pelo psicólogo Jonathan Haidt, a fundar a Heterodox Academy, de onde Damore extraiu sua estatística de 95%. A opinião expressa por ele no parágrafo acima pode estar sujeita a crítica. Mas não justifica sua demissão. É justamente o tipo de divergência esperada, numa empresa que pretende zelar pela convivência de “visões alternativas”. A decisão de demiti-lo revela que, apesar de ser uma empresa de comunicação – fato que não reconhece –, o Google é incapaz de entender a essência da liberdade de expressão. Ela só precisa ser defendida para aqueles que discordam da maioria. Querer que todos concordem com a visão predominante ou hegemônica ou que se submetam a códigos de conduta é o sonho de tiranos ou ditadores.


fonte http://g1.globo.com/mundo/blog/helio-gurovitz/post/o-google-e-liberdade-de-expressao.html
"

Posted in Mundo

"O Google e a liberdade de expressão" | Login/Criar uma Conta | 0 comentários
Os comentários são propriedade de quem os escreveu. Não somos responsáveis pelo seu conteúdo.

Os comentários não podem ser enviados por utilizadores anónimos. Por favor registe-se