Mianmar: crianças rohingya estão em condições ‘assustadoras’, alerta UNICEF

A porta-voz do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), Marixie Mercado, retornou no início de janeiro de uma viagem a Mianmar, onde ficou entre os dias 6 de dezembro e 3 de janeiro.

Em Genebra, ela relatou o que viu, em especial no estado de Rakhine. A porta-voz lembra que a onda de violência iniciada em agosto levou 655 mil pessoas, a maioria rohingya, a buscar refúgio em Bangladesh.

Na parte central de Rakhine, Mercado destaca que 120 mil rohingya estão “abandonados” em acampamentos desde 2012 e mais de 200 mil estão em vilarejos sofrendo com restrições de movimento e falta de acesso a serviços básicos.

O UNICEF não sabe qual é a situação real das crianças que estão no norte de Rakhine porque o acesso não é suficiente, mas Marixie Mercado confirma que o que se sabe é “profundamente perturbador”.

Antes de agosto, a agência da ONU tratava 4,8 mil crianças com desnutrição severa, mas esses menores não estão mais recebendo tratamento. Centros de saúde estão sem funcionar ou foram destruídos.

Segundo ela, é possível que pelo menos 100 crianças tenham sido separadas de suas famílias durante a violência e existe dificuldade para obter água potável e alimentos.

A porta-voz da agência da ONU pediu atenção para 60 mil crianças rohingya “que estão praticamente esquecidas e isoladas em 23 acampamentos na zona central de Rakhine”.

Segundo Marixie Mercado, as condições em alguns campos são lamentáveis, com “tendas próximas a depósitos de lixo e excrementos” e em um acampamento. O lago onde as pessoas buscam água “é separado do esgoto por uma parede de barro”.

O UNICEF continua pronto para trabalhar com o governo de Mianmar e o estado de Rakhine em prol de todas as crianças, independentemente de sua “etnia, religião, condição social ou circunstância”. Mas, para isso, a porta-voz explica ser essencial “acesso urgente, regular e ilimitado a Rakhine”.

Sem escolas

As restrições fazem com que seja “extremamente difícil” para os rohingya deixarem os acampamentos para receber tratamento de saúde, já que uma autorização de viagem depende de uma justificativa oficial de um médico. Essa autorização também tem um custo, que a maioria não pode pagar.

A falta da liberdade de movimento também prejudica o acesso das crianças à educação. Marixie Mercado notou que, nos acampamentos, as salas improvisadas não têm condições adequadas e os professores voluntários têm pouco treinamento formal.

Segundo a porta-voz do UNICEF, nenhum muçulmano consegue frequentar a universidade no estado de Rakhine desde 2012. Por isso, ela ressalta que “as crianças rohingya precisam desesperadamente de acesso à educação para que tenham um futuro melhor”.

A representante defende uma solução política para as crianças rohingya, sobretudo na questão da identidade e da cidadania, mas principalmente que sejam reconhecidas como crianças e tenham garantidos seus direitos à saúde, à educação e a oportunidades.

Agência da ONU preocupada com acesso a alimentos nutritivos

O Programa Mundial de Alimentos das Nações Unidas (PMA) fez uma pesquisa com 2 mil famílias rohingya que saíram de Mianmar e estão em Cox’s Bazar, Bangladesh, onde a situação de segurança alimentar é “extremamente precária”.

O PMA deve ampliar neste ano seu programa de cupons eletrônicos para ajudar mais civis, o que segundo a agência custa menos do que distribuir comida. Segundo o estudo, as pessoas que recebem os ‘vouchers’ têm acesso a uma dieta mais nutritiva do que os que não participam do programa.

Após fugirem da violência em Mianmar, refugiados rohingya vivem em locais improvisados superlotados em Cox's Bazar, Bangladesh. Foto: ACNUR/Saiful Huq Omi

Após fugirem da violência em Mianmar, refugiados rohingya vivem em locais improvisados superlotados em Cox’s Bazar, Bangladesh. Foto: ACNUR/Saiful Huq Omi

Atualmente, 90 mil refugiados em Cox’s Bazar recebem o benefício do PMA, obtendo todos os meses um cartão de débito pré-pago que pode ser utilizado para comprar uma variedade de 19 alimentos, incluindo arroz, lentilha, vegetais, pimentas, ovos e peixe.

Os cartões eletrônicos são fornecidos às mulheres para que elas possam decidir por suas famílias o que comprar.

A agência da ONU também entrega alimentos para os refugiados rohingya: arroz, óleo vegetal e lentilhas, uma porção de emergência que fornece calorias básicas, mas “sem conter diversidade”.

Como foram registrados níveis muito baixos de desnutrição nos últimos meses, o PMA também fornece reforço nutricional para crianças abaixo dos cinco anos, grávidas e mulheres que amamentam.

A pesquisa mostra que, em 70% das famílias, o consumo de alimentos está num padrão aceitável, sendo que os que recebem os cupons são os que mais conseguem acessar uma dieta nutritiva.

Mas, em 80% das famílias, pelo menos uma pessoa ficou doente no último mês. O PMA lembra que desde agosto, mais de 65 mil rohingya deixaram Mianmar a caminho de Bangladesh.

 

Fonte https://nacoesunidas.org/mianmar-criancas-rohingya-estao-em-condicoes-assustadoras-alerta-unicef/

 

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